Océlio de Jesus C. Morais

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

As palavras de seu livro

(Do que elas nos falam ?)

Océlio de Morais

A palavra está no pensamento. A palavra está no ar. A palavra está na escrita. A palavra está no mundo. As palavras escrevem e descrevem o mundo.

Se, de repente, por apenas alguns segundos, a gente pudesse sintonizar todas as ondas magnéticas do mundo, iríamos ouvir o turbilhão infinito de palavras que ecoa como trovões e trovoadas pelo cosmo, palavras com todas as significações.

E, se a gente pudesse traduzir em palavras todos os pensamentos que nos ocorrem durante a nossa existência, teríamos uma certa dimensão se nossas palavras foram mais amáveis ou cáusticas, ou se foram sinceras ou falsas. 

As palavras diriam um pouco de cada um de nós. E o outro pouco ficaria no anonimato até que novas palavras resolvessem dizer alguma outra coisa ou revelar as diversas outras coisas que compõem o mundo das nossas ideias.

Às vezes, uma palavra diz tudo; às vezes, apenas insinua coisas e, às vezes, desvirtua o sentido próprio. Por isso, entre o significado ou natureza da palavra (dita ou escrita,) existem múltiplas possibilidades e limites de interpretação.

A palavra serve para várias coisas nas descrições subjetivas ou objetivas. E saber usar a palavra para o momento certo, no lugar certo e à finalidade adequada é uma arte que, infelizmente, nem todos têm.

Por tudo isso, e por outras coisas mais que a gente nem percebe, mas a palavra vai codificando nossa personalidade, enquanto que o leitor vai decodificando nossos desejos através das interpretações.

Isso ocorre porque a palavra é inerente exclusivamente à inteligência humana e aos seus processos comunicativos. É por isso também a palavra possui um “significado próprio e uma existência independente”, conforme a linguística nos ensina.

A gente vai criando os seus significados e usando-os de acordo com nosso estado de espírito ou segundo as conveniências sociais.

Diferentemente do cientista, que usa palavras racionais para expressar seu complexo ponto de vista, de outro lado, o poetas, o cronista, o escritor falam mais com os sentidos lúdicos que habitam suas sensações.

O filósofo, escritor e linguista Umberto Eco, que nos deixou em fevereiro de 2016, (Epicteto, o escravo que tornou-se filósofo entre 35 a 94 a.C, dizia que a pessoa não morre, mas volta ao local de onde veio), definiu a palavra como um “tesouro social”.

Eco vasculhou as significações da palavra, do texto e da interpretação, através da representações sociais definidas como sistema de comunicação. 

No livro “Interpretação e superinterpretação” – resultado das conferências realizadas em 1990 na Universidade de Bolonha onde doutorou-se em filosofia a partir da tese sobre a escolástica de São Tomás de Aquino – Eco escreveu:

- “Um texto deve ser produzido, não para um único destinatário, mas para uma comunidade de leitores” (modelos ou empíricos) considerando “suas competências na linguagem  enquanto tesouro social”, esta entendida como “convenções culturais que uma língua produziu” (2005, p. 75-80).

Talvez por isso, o poetas, o cronista, o jornalista, o professor, o filósofos, o linguista sejam os maiores decodificadores das palavras que o povo vai inventando.

Aliás, vocês já observaram o que os poetas e cronistas fazem com as palavras? Prazerosamente, eles brincam com elas, arrumam e desarrumam seus significados conforme suas almas vão sussurrando em seus ouvidos até dizer o que elas pensam.

A palavra traduz (poeticamente, por exemplo) os sentimentos da matéria prima que é o laboratório da vida.

Clarice Lispector,  Fernando Pessoa, Cecília Meireles Manuel Bandeira, apenas para citar alguns que brincavam com as palavras, davam às mesmas significados especiais, assim, marcando suas criações literárias.

Tida como a maior escritora judaica depois de Franz Kafka – o cara genial das obras geniais (A Metamorfose, O processo, o Castelo) mas que somente depois da morte foi reconhecido como tal – a Clarice Lispector (ucraniana de nascimento e brasileira por naturalização) disse certa vez:

- “Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras”. E, noutra ocasião, complementou;  “Já que se há de escrever…, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.

Para ela, nas palavras não cabiam subterfúgios.  

Alma que reuniu numa só paixão o jornalismo, a pintura, a poesia, a escritora e o magistério,  Cecília Meireles zelava pela beleza da palavra. Ela gostava da harmonia conjugando as palavras. 

Com a delicadeza poética que lhe era peculiar, no poema “Epigrama 2” ela pediu: “Não fales palavras vãs”,  ao se referir às “palavras do mundo”.

Provavelemente ela tenha querido dizer o seguinte: não machuquem as palavras. Elas devem ser utilizadas para traduzir o belo. 

Manuel Carneiro de Bandeira  Filho  (simplesmente Manuel Bandeira) – será mesmo que a origem dos portadores do sobrenome “Carneiro” são descendentes de Monsieur Joani Mouton, descendente dos Duques de Mouton na França, do  980 d.C ? Só Deus sabe!) – inventava palavras para dizer que falava pouco mas amava muito.  Olhem  a singeleza das palavras  no poema “Neologismo””:

- “Beijo pouco, falo menos ainda. Mas invento palavras. Que traduzem a ternura mais funda. E mais cotidiana. Inventei, por exemplo, o verbo teadorar”.

E Fernando Pessoa? Todo mundo que gosta deste escritor,  sabe que o português foi um poeta de alma.  

Olhem o que ele escreveu ao comparar a alma dos outros aos “gestos e às palavras”, quando confessou que nada sabia das coisas da alma: “Nada sabemos da alma, Senão da nossa; “As dos outros são olhares. São gestos, são palavras. Com a suposição, De qualquer semelhança no fundo.

Escritores, poetas e cronistas, quando brincam com as palavras, são artífices privilegiados da semântica. Certamente por isso, os leitores multiplicam e dão longevidade às palavras.

Então as nossas sensações são reveladas pelas letras que formam as palavras, pelas palavras que formam frases, pelas frases que formam textos, textos que narram estórias e histórias.

Desse modo, o indivíduo é um texto de palavras verbalizadas ou escritas. Pode ser um texto bonito, que atrai como um ímã, - aquele tipo de texto que o leitor não cansa de ler e nem de reler tantas quantas vezes bate a vontade; ou pode ser um livro com palavras sem a luz e sem o sal da terra que, com palavras obscuras, não irradia aroma e nem sabor.

Por tudo isso, a palavra não pode ser maltratada, também para não maltratar o leitor, muito menos a quem se ama. 

Até ao coração invejosos (onde repousa o veneno da amargura e das perversas maquinações), a palavra deve caridosa, uma espécie de mão estendida à transição da tristeza à alegria, à transição da desconfiança à confiança, à transição do desafeto ao afeto.

A palavra deve ser regada no canteiro da cortesia, lugar fecundo da harmonia que exala o aroma mágico da poesia.

Para encerrar essa crônica, agora eu pergunto a vocês: o que falam as palavras sobre sua alma?

Océlio de Morais
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