Lena Cristina Barros Mouzinho

Trabalho como psicóloga, com pessoas, famílias, casais e grupos. Sou apaixonada por Educação Relacional e fiz disto meu sentido de vida. Todo meu exercício profissional é na busca de conexão humana, por meio do diálogo.

'Hoje o tempo voa! Escorre pelas mãos!'

Lena Mouzinho

Estamos somente iniciando uma nova década em pleno século XXI e governante de poderosa nação no cenário mundial fomenta a guerra como solução para problemas.  

Enquanto vem à lembrança atrocidades inimagináveis que humanos foram e são capazes de engendrar em situações de guerra, justificadas por sagrados e nobres propósitos, vem uma pergunta: o quanto isso reflete a cultura de beligerância que ainda permeia nossas relações cotidianas?

A guerra está muito presente em nossa convivência. Basta constatar nas horrendas estatísticas de violências. 

É vista ainda hoje como estratégia para “exterminar” conflitos em relações que acumularam violências mútuas: os envolvidos se sentem lesados um pelo outro e partem para a vingança como forma de fazer “justiça”, buscando superar a violência do outro,  com uma maior e mais aniquiladora, num círculo vicioso. 

Por trás das violências de ambos, urram necessidades humanas que foram impedidas de serem satisfeitas: “estou defendendo a mim e aos meus”, “é preciso acabar com o mal que vem de lá”...

Os antagonistas acreditam que exterminar o outro lhes trará a paz. E não se dão conta da complementaridade na construção do que fere e feriu a ambos.  

Para guerrear, além de aliados, são escolhidos representantes institucionais e até profissionais “especializados” em luta, que protagonizarão com eficiência e eficácia a sua guerra e a de seus representados. Algo parecido com: "Vou chamar meu irmão maior e ele vai te mostrar com quem te meteste". 

Enquanto outros são arrastados para o front sem mesmo saber exatamente o para que.

Para que escolher a guerra?

A guerra - seja lá qual for - como toda a expressão de violência humana, explode pelo desuso de nossa capacidade de dialogar e de realizar combinações em nossas relações, de tal forma que se busque a satisfação das necessidades de todos os que fazem parte. 

Explode pela ignorância do que somos e do que é esse maravilhoso planeta do qual somos células, em relação de interdependência. E, portanto, pela falta da consciência de que, ao decidir “acabar com o outro”, decidimos nos ferir mais a nós mesmos, aos “nossos” e a tudo, visto que estamos irremediavelmente interligados.

A guerra arrebenta de dentro da relação entre humanos imaturos, que não aprenderam a se reconhecer como dignos, pelo simples fato de serem humanos e que precisam a todo custo provar para si e especialmente para os outros, desesperadamente, que são seres especiais. 

Que pelo medo de dizerem sim ao “como estão”, bem como para sua singularidade, construíram padrões para homogeneizar diferenças e hierarquizaram o valor das pessoas. 

Que transformaram o reconhecimento como “alguém de valor” – uma necessidade vital humana - em escasso prêmio: apenas para poucos - hipertrofiando a competição. 

E que aprenderam a olhar desde muito cedo, suas imaturidades - estados a serem superados - como defeitos, sinais de inferioridade e de inadequação aos padrões e vivem infelizes consigo próprios, consumindo uma vida inteira na busca incessante de ser – ou no mínimo aparentar ser - o que não são, no lugar de saborear o desabrochar do que são.

Pessoas subnutridas assim, por não conseguirem reconhecer seus poderes essenciais, buscam compensar a sensação de “raquitismo”, em Poder mais e melhor que os outros.  

A fome de validação nunca saciada, torna-se voraz. E pelo tempo e repetição de comportamentos, tal busca desenfreada por Poder, transforma-se em arrogante e compulsiva ganância e ambição: “Quero tudo! E sempre! E mais!”. 

Lutas freqüentes passam a ser condição para sentirem-se vivas, entrecortadas por efêmeros instantes de satisfação após vitória em batalha...para logo em seguida retornarem a intensa ansiedade de quem vive em guarda, em defesa, espreitando o momento para reagir ao próximo ataque. Ou para atacar antes.

Desenvolver-se e prosperar, para quem está regido por essa “fome”, em jornada que não a saciará jamais, torna-se insano.

Importante enfatizar: como fomos formados na mesma cultura que cultiva a escassez do valor humano e a competição, esta é uma tendência que está em nós também, mesmo que com intensidades diferentes. Quanto maior a consciência, mais temos poder de cuidar de nós, buscando verdadeira nutrição. Do contrário alimentaremos a insanidade. Pois é o confronto entre pessoas que dependem da competição cotidiana para se auto-afirmar, que gera dolorosas lutas em casa, no trabalho, no trânsito, nas igrejas, entre igrejas, na política partidária, entre organizações, entre nações, no planeta...
 
O que queremos, afinal?

Para que ainda utilizamos o ataque - forma de defesa das mais primitivas - se nossas inteligências humanas já nos permitem lidar com conflitos, promovendo aprendizagem para todos? 

Em todo este tempo de avanço civilizatório temos procrastinado aprender a lidar com aquilo que transformamos no principal desafio na existência humana: nossa educação emocional. 

A agressividade, poderosa energia natural em nós e em tudo o que vive, nos assustou com seu poder destrutivo e resolvemos reprimi-la no lugar de aprender a lidar com ela à serviço do nosso real desenvolvimento.

A raiva, a inveja, o ciúme e outras emoções humanas foram tratadas como energias negativas, transformadas em pecados e interditadas. E nos surpreendem todos os dias, maquiadas com o verniz da cultura pseudo-pacífica ou explodindo ante a frustração, sem que saibamos muito bem o que fazer delas e com elas. Aquilo que não aprendemos a decifrar em nós, nos devora. 

Emoções que emergem para nos nortear, por não serem compreendidas, assumem o comando em explosões cegas, surdas e incontroláveis. À serviço da sanha do nosso preconceito, que luta num "vale tudo mesmo" e que "parte pra ignorância" pra provar para si e para os outros sua supremacia. E destrói o que vive todos os dias. De várias formas. Às escondidas até...para não macular a imagem de "pessoa do bem" que, depois da manifestação do “mal” retorna ao “normal”... Lembram do médico e o monstro?

Chegou o tempo de nos encarar! Aliás, está passando da hora! 

O antídoto para a violência que projetamos fora, está num terreno fértil e maravilhoso dentro de cada um de nós e entre nós, nas nossas relações. 

Em cada pessoa reside um potencial para viver o que há de mais belo: fomos programados biologicamente para nos conectar.

É urgente descolar do lugar de expectador apático ou paralisado pelo horror ou do desesperado que patina como uma “barata na cuia" e assumir-se como co-responsável, exercitando voluntariamente atitudes cotidianas no contraponto da insanidade.

Lembram da canção “Tempos Modernos” do Lulu Santos? 

Escuto a vibrante interpretação de Marisa Monte, que termina com acordes que soam como que ninando este instante:

"Eu vejo a vida melhor no futuro.
Eu vejo isso por cima de um muro
De hipocrisia que insiste em nos rodear.
Eu vejo a vida mais clara e farta,
Repleta de toda satisfação
Que se tem direito do firmamento ao chão...
...Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera,
Com habilidade
Pra dizer mais sim do que não.
Hoje o tempo voa, amor.
Escorre pelas mãos.
Mesmo sem se sentir
Que não há tempo que volte, amor,
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir"

"Vamos nos permitir” coragem para aprender a estar juntos e aprender a dialogar? A proposta contida na Comunicação Não-violenta de Marshall Rosenberg é revolucionária. 

Coragem para sair da problematização estéril e focar juntos em soluções para as guerras cotidianas?
 
Coragem para desenvolver no contato com pessoas – seja lá quais forem – a delicadeza ecológica de quem entra num bosque sagrado, para aprendê-lo com reverência curiosa?

Coragem para saborear nossa existência com o estado de presença onde a vida está acontecendo: aqui-e-agora?

Coragem para olhar e escutar nossa beleza interior e deixá-la transbordar nas atitudes daquela pessoa com quem sonhamos nos relacionar? Sim! Seja como aquela pessoa que tu esperas que surja!

Coragem para reconhecer a gravidade da doença e buscar cura?

Coragem para lidar com o desafio de aprender a compartilhar poder na fratria  e colher a alegria e a riqueza resultantes?

Daí resulta a real prosperidade. 

Uma sociedade próspera é um lugar onde todas as pessoas humanas verdadeiramente se sentem respeitadas em sua dignidade. Isto é possível aprender, exercitando.

Somos dignos de dar passos à frente em nossa evolução.

Lena Mouzinho
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