Lena Cristina Barros Mouzinho

Trabalho como psicóloga, com pessoas, famílias, casais e grupos. Sou apaixonada por Educação Relacional e fiz disto meu sentido de vida. Todo meu exercício profissional é na busca de conexão humana, por meio do diálogo.

Como ajudar a ensurdecer a pessoa que quero muito que me escute?

Escutar é muito mais do que ouvir. É sentir o que ouvimos.

Lena Mouzinho

Já tiveste a impressão de que aquela pessoa que precisas tanto que te compreenda, não te escuta?

E a sensação de que falas as mesmas coisas, há tempos e o outro dá sinais nítidos de que jamais te escutou?  Te soa familiar?

Escutar é muito mais do que ouvir. É sentir o que ouvimos. Lembras de teres ouvido uma canção que te emocionou? Isso aconteceu porque estavas escutando a canção, presente, inteiro, atenção entregue ao que ouvias.

Temos estado bem deficientes quanto a escutar outras pessoas para aprendê-las. Nossa arrogância nos faz acreditar ilusoriamente que já as conhecemos e que são analisáveis e até previsíveis.

É com essa mesma postura de pretensa superioridade que temos contribuído para que pessoas se blindem protetivamente e não nos escutem.

Sabes aquele ar de indiferença, impertinência e de desdém que o outro expressa enquanto falas? E o berro agressivo interrompendo a tua fala? E a porta que bate, em retirada, após abrires a boca para começar a falar?

Podem ser jeitos trágicos e desesperados de alguém dizer: “não suporto mais a dor que sinto ante o que me falas e como me falas!”

Conheces alguém com aversão e pânico ante as famosas DR?

Vamos buscar entender um pouco sobre esse fenômeno?

Quero conexão ou desconexão?

A conexão numa relação interpessoal exige respeito mútuo. Ambos precisam sentir-se validados.  O diálogo - aquela conversa que pode até ser difícil mas é movida pelo desejo mútuo de compreensão  - acontece entre humanos que se reconhecem mutuamente com valor, com direito a diferenças, que sentem prazer em identificar semelhanças entre si e buscam juntos investigar novas formas de viver, que promovam satisfação na relação. Rumar para esse cais acontece num clima prioritariamente de cooperação.

Percebes que sabemos muito pouco a esse respeito?

Assumir o lugar de superioridade ante outra pessoa é uma atitude altamente ameaçadora e portanto,  desconectadora. Pressupõe-se, assim, que existe alguém que sabe mais, que se acha mais experiente, que julga a posição do outro em desvantagem e que, por isso, se acha no direito de argumentar para “con-vencer” a outra pessoa a mudar. Uma atitude tipicamente invasiva, colonizadora. Uma luta na qual um ataca e o outro naturalmente resiste, se protegendo.  Defesa que, com o aumento da intensidade emocional, pode resultar em sua forma mais primitiva: o revide com ataque. Um clima competitivo - discussão, debate – que pode caber perfeitamente em algumas instituições humanas mas, que é desnecessário e até prejudicial “em vidas que andam juntas”.

Até autoridades instituídas, se querem conexão com seus pares, precisam considerar o valor de seu interlocutor como um “legítimo outro”.

Diálogo,  portanto, não acontece quando eu decido ocupar para sempre, na relação com outra pessoa, o lugar de professor, conselheiro, terapeuta, orientador, fiscal, juiz... Não se realiza quando eu considero a outra pessoa como uma extensão e que, porque quero ajudá-la, isso me dá o direito de dirigi-la como a um fantoche, buscando transformá-la à minha “imagem e semelhança” e impondo, mesmo que sutilmente (manipulação), minha opinião sobre aquilo que ela sequer pediu. O nome disto é relação de dominação.  

Cabe ressaltar aqui que as posições institucionais citadas acima são importantes mas,  são buscadas, escolhidas e combinadas pela própria pessoa, conforme sua necessidade. E mesmo assim, todas tem prazo de validade.

Sermões, “palestras educativas” e lições de moral para um par afetivo são pois muito mal-vindas. Conversar com alguém que acha que sabe tudo e não escuta,  pois nada tem a aprender, é altamente tóxico. A simples comunicação verbal e/ou não verbal de que “teu comportamento é errado e vou te corrigir” é capaz de levantar fortes resistências.  Se as pessoas tivessem consciência dos motivos profundos de sua raiva, nesse momento, provavelmente responderiam de forma clara: “Não estou interessado em que outras pessoas tenham poder sobre mim. No lugar de tentares me “educar” que tal validares o que eu já faço e vivo?”

Coisas que “em vidas que andam juntas” não se fala

A seguir alguns exemplos de “venenos” que, de tanto que foram banalizados,  tornaram-se vícios, usuais. Funcionam como verdadeiros cupins devorando laços que um dia foram belos.

  • Julgamentos e críticas: humanos amam ser reconhecidos por seus aspectos positivos. Desta forma descobrem-se com importância em seu meio. É doloroso ter imaturidades suas enfatizadas como defeitos. Ser avaliada, diagnosticada e culpada como inadequada faz com que a pessoa se envergonhe dela própria, sinta raiva de si e de quem a pune enfatizando esses aspectos.  Que estranha forma de contribuir com o desenvolvimento do outro insistindo num comportamento ao qual o outro reage com aversão explícita? Pra que enfiar goela abaixo aquilo que está claro que o outro não se sente em condições de receber?

  • Cobranças e exigências: a dominação está de novo aqui estampada. O outro me deve ser do jeito que eu quero que ele seja?  A vitimização é muito utilizada aqui para maquiar essa forma de controle do outro.  Consequências? A pressão costuma paralisar quem se sente injustiçado. Aflora o sentimento de inadequação e mágoa (no fundo, raiva): “Sou mesmo uma porcaria. Por mais que eu faça nunca estou à altura. Não sou suficiente para satisfazer essa pessoa”.

  • Interpretações: “Você fez isso porque...” Quase sempre sequer temos consciência de nossas próprias intenções. Como sabemos as dos outros? Não, essa não é uma percepção dedutiva ou intuitiva. É somente variação do julgamento sempre injusto, pois sem elementos suficientes.

Ou “quiseste dizer...” Infelizmente ainda não nos desenvolvemos empaticamente para adivinhar o que acontece no mundo interno de quem nos cerca.

  • O “mas”: “Foste ótima mas...”  Depois de um “mas” costuma  vir a negação de tudo o que foi dito anteriormente. Ele é comumente utilizado para disfarçar o que vem depois.

  • Ferir o outro e justificar-se:

Feres alguém com uma atitude tua que consideraste bem intencionada e diante da reação, partes para te  justificar. Perguntaste para a pessoa, antes de agir, se o que estavas planejando tinha um bom sentido para ela?  Ou te impuseste com tua “boa intenção”? Quando me justifico continuo defendendo meu lugar do “bonzinho”, superior na relação e o outro... um ingrato. Se me justifico,  continuo reafirmando o mal que fiz . O mal aumenta quando julgo que a reação da outra pessoa é desproporcional. O que sei sobre a real sensibilidade da pessoa? E a dor do outro grita mais ainda quando retruco: “Sinto muito. Fiz isso sim mas,  você faz a mesma coisa!” ou “fiz isso com você porque você fez comigo”. Como se vingança fosse um ato de justiça.  

  • A palavra “discordo”: convida ao embate ou a evitação.  O ato de suspender a tendência em concordar ou discordar deixa as hipóteses livres para serem  co-criadas e reveladas na conversa.

  • Perguntas inquiridoras: denotam clara relação de dominação. As policialescas que buscam encontrar incoerências, checar dados, convidam a mentira.  Perguntas valiosas são aquelas que denotam meu desejo de compreender a outra pessoa. E muitas vezes as desvalorizamos com respostas rápidas que nós mesmos damos, sufocando a incerteza e a reflexão sempre benéfica à relação.

  • Outras formas manipuladoras de comunicação : Indiretas, ironia e sarcasmo, que são  usadas para inferiorizar o outro.

O que quero é conexão?

Então, primeiro preciso ampliar e aprofundar meu olhar para perceber o que a outra pessoa já faz, que contribui para que minha vida seja maravilhosa.

E preciso expressar, sem reservas, meus sentimentos de alegria, satisfação e gratidão por essas atitudes. Este é o solo propício para que vinguem belas sementes.

 

E, nos momentos complexos da nossa vida, pessoas tornam-se mais predispostas a nos escutar se forem primeiro escutadas. E por quem estiver disposto genuinamente a compreender seus sentimentos e necessidades: “Como estavas te sentindo quando fizeste...?”, “O que pensavas a respeito quando escolheste agir assim?”, “O que era muito importante naquele momento em que agiste assim?”,  “Como estás te sentindo agora depois que fizeste?” e...buscando compreender.

Compreender é via expressa para ser compreendido se a outra pessoa quiser legitima conexão comigo.

Conversas difíceis exigem coragem de nossa parte, também.

Coragem para aprender a falar sobre mim e por mim. E compartilhar minha vulnerabilidade: minhas emoções e sentimentos que despertaram ante os comportamentos do outro e que indicam necessidades minhas que não tenho conseguido satisfazer.  

Coragem para assumir minha responsabilidade sobre mim mesma: não posso atribuir ao outro (aprendiz de conviver) a responsabilidade por satisfazer minhas necessidades que ele desconhece.

Coragem para admitir que nem eu mesma sempre tenho clareza sobre o que preciso fazer para me fazer feliz e portanto,  preciso buscar esta lucidez.

Coragem para aceitar que vivo em relação de interdependência com o outro e que para ser apoiada por esta pessoa preciso aprender a PEDIR-LHE apoio.

Coragem para assumir que eu própria não identifiquei ainda o que necessito pedir para o outro, para que me ajude a tornar minha vida maravilhosa.

Coragem para receber deste outro, quando eu aprender a pedir, a resposta: “Sim, posso te apoiar.” Ou “Não”.

Na medida em que aprendemos com as experiências e percepções uns dos outros, nosso olhar se enriquece e nos tornamos menos confusos nesta caminhada.

Só o dialogo nos informa, nos alimenta e nos movimenta para patamares mais profundos de confiança e intimidade.

 
Lena Mouzinho
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