Lena Cristina Barros Mouzinho

Trabalho como psicóloga, com pessoas, famílias, casais e grupos. Sou apaixonada por Educação Relacional e fiz disto meu sentido de vida. Todo meu exercício profissional é na busca de conexão humana, por meio do diálogo.

A hora e a vez das 'conversas delicadas'

Elas têm uma hora sim. E adianto que não é naquele momento em que estamos enraivecidos pela frustração.

Lena Mouzinho

Chega uma hora em que precisamos lidar com nossos conflitos com o outro.

Escondê-los de nós, “sob o tapete”, de nada ajuda. Só acumula a sujeira que um dia explode em mau cheiro, contaminando todo o ambiente e quem convive nele. E todos sabem também que aquele clima tenso de “guerra fria” é bem desconfortável e infeliz. Faz sentido?

Somos muito semelhantes quanto ao que necessitamos para nos desenvolver como humanos, mas bem diferentes em outros aspectos.

Cada um tem uma história, mesmo que tendo vivenciado a mesma situação, pois tem formas diversas de perceber o que aconteceu em nosso trajeto, no tempo e espaço, na relação com as pessoas. Ocupamos lugares diferentes, que nos possibilitam prismas diferentes e significamos os eventos de formas diferentes.

E não há ninguém certo, nem errado em sua percepção. Há sim, o olhar singular de cada um que clama por ser validado. Olhares opostos, pois complementares. Então é esperado que, na hora de dar passos juntos, entremos em conflito.

Conflitos acontecem não para que alguém ganhe. Quando um sai vitorioso nesse momento, a relação perde e TODOS perdem. O resultado que promove desenvolvimento humano é a transformação das pessoas envolvidas, quando juntas desvendam novas possibilidades de conviver que satisfaçam a ambos. Este é o nosso desafio.

Nas horas de conflito há tensão na relação. É preciso reconhecer que neste momento há medo de perdas nos dois lados. Há feridas abertas que precisam ser curadas em ambos. Há necessidades (“aquilo que não cessa”) insatisfeitas que clamam por cuidado. Há vulnerabilidades humanas que precisam de delicadeza no trato.

Preparando a “conversa delicada”

Quando nossa prioridade é criar conexões entre nós e os outros costumamos  buscar circunstâncias facilitadoras. Criamos um clima propício. É assim quando queremos dizer para alguém que é especial para nós. Escolhemos a hora certa para estar disponível, um lugar confortável e protegido da interferência de outros, planejamos o encontro e fazemos o convite. E depois aguardamos a outra pessoa estar disponível para esse contato, olho no olho.

Não é diferente quando precisamos  ter uma “conversa delicada”.

Elas têm uma hora sim. E adianto que não é naquele momento em que estamos enraivecidos pela frustração, por achar que a pessoa não está agindo conforme minhas expectativas.

É importante não falar sob o impulso dessa energia. Ela nos faz julgar e culpar a pessoa pelo mal que estamos vivendo.

Julgamentos humanos são sempre injustos por falta de elementos e por estarmos mais tendenciosos do que nunca num momento assim. Resultado: ao se sentir injustiçada a pessoa vai reagir.

Antes de conversar é bom lembrar: tudo de bom e de ruim numa relação é construída pelos envolvidos. E não é possível definir percentual de responsabilidade.

Precisamos então olhar pra dentro da raiva e sondar: que necessidades minhas não estou satisfazendo e que atribui a esta pessoa o dever de satisfazer? Investigar primeiro o que estou me “devendo” e o que  fazer para dar conta de minha “fome” e “sede”. E indagar-me sobre qual ajuda preciso do outro para dar conta de mim e das minhas necessidades identificadas.

Com essa consciência ampliada é que finalmente posso formular um PEDIDO para fazer ao outro. Não uma cobrança, nem “chamada de atenção”, nem reclamação, nem exigência, nem queixa, nem culpabilização... nenhuma destas comunicações aversivas ao outro, que não serão escutadas. É pedido de quem se considera vulnerável no momento e que necessita de apoio para continuar. Um pedido formulado em linguagem positiva, específica, realizável. Com clareza, para que a outra pessoa se sinta informada sobre como pode me ajudar e possa então avaliar se tem condições de atender-me ou não.

Agora sim chega o momento de convidar para conversar.

Pode ser que a pessoa diga sim ao pedido. Pode ser que ela não tenha condições de responder ao que espero. Sua resposta no entanto nos trará elementos para a escolha de caminhos.

Outros momentos inóspitos

Não é possível impor conversas no momento em que vejo nitidamente que a outra pessoa está irritada (é raiva ) ou assustada comigo.

Nem na hora em que a pessoa está engajada em alguma atividade, para ela importante – até para proteger-se do incômodo que está sentindo ao meu lado.

E, por favor, à noite não.  As sombras e os silêncios noturnos fazem com que nossas experiências internas sejam sentidas como agigantadas. Então, coisas são ditas de forma tão intensa, que no dia seguinte não fazem tanto sentido, mas  já fizeram  estragos. O sono humano é uma atividade vital. A descarga de adrenalina em uma conversa tensa pode vir a afetar o sono das pessoas, além do desempenho de suas atividades no dia seguinte. Isso pode se configurar em violência.

Quando está impossível conversar olho no olho, tudo bem buscar a comunicação virtual como alternativa. O whatsapp, por exemplo, pode ser um recurso facilitador da comunicação quando está impedida. Mas cuidado. Quem lê dá o tom. “Desabafar” jogando o lixo todo impulsivamente no outro, pode resultar em distanciamento maior. Lembre-se de que precisa-se reciclar antes, para somar e não subtrair energias da relação. Queres desabafar? Escreve em teu aplicativo de notas tudo o que te vem no corpo, em teus pensamentos e emoções. No dia seguinte lê, depura, decanta, veja o que ainda faz sentido. Observa o que ainda há da vitimização de alguém que precisa aprender a responsabilizar-se por si.  Até decidir enviar...E que não seja à noite! Bom respeitar a fronteira da outra pessoa que a comunicação virtual tem-nos possibilitado invadir.

Chegará um dia em que reconheceremos que buscar nossa conexão com todos é necessário para nossa saúde e do planeta. Então, seremos felizes.

Enquanto isso, exercitemos nos conectar  com quem já queremos aprender a amar.

Lena Mouzinho
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