Bel Soares

Comunicóloga por formação, comentarista de futebol por paixão! Já atuou como repórter de campo no radialismo esportivo e agora é na web que faz suas resenhas e análises futebolísticas. Sou mulher, amo futebol, mas não vou te explicar a regra do impedimento! Instagram: @falabelsoares E-mail: belmsoares@hotmail.com

O melhor ponta direita da década de 80, revelou: “Seria uma honra treinar um time do Norte do país"

Bel Soares

Roberto Oliveira, o Robertinho, que jogou ao lado de grandes nomes como Edinho, Claudio Adão, Rubens Galaxe, entre outros, na geração 80 que fez história no tricolor carioca, falou – direto da África, onde se encontra como treinador – sobre trajetória, sonhos e, claro, Fluminense. Filho de pai tricolor, não teve como fugir à regra e, aos 9 anos de idade, já atuava no futsal do time carioca. Confiram a resenha!

 

Você tem uma trajetória como jogador de futebol brilhante, foi considerado um dos melhores atacantes e ponta direita da década de 80. Qual era o diferencial do Robertinho que encantou e dava trabalho à marcação adversária?

Eu acho que foi começar com a camisa 9 muito cedo (risos) e ter correspondido ao que se espera de um camisa 9. Eu passei por todas as divisões de base do Fluminense. Aos nove anos eu tava no futsal, aos quinze, já nos gramados, eu era titular do sub-20, aos dezessete eu era titular do sub-23 e, logo em seguida, fiz minha estreia no profissional, diante de um maracanã lotado, onde eu contribuí com um importante gol de cabeça contra o Botafogo. Tudo isso chamou atenção de Telê Santana, que já buscava um substituto para o Gil, que fazia parte de um Fluminense que ficou conhecido como a “máquina tricolor”, e me convocou para atuar nessa função no Torneio de Toulon, onde fomos campeões – dando o primeiro título da CBF -  e eu fui vice-artilheiro. A partir daí, eu passei a ser o ponta-direita Robertinho.

O que, na sua opinião, mudou no futebol brasileiro desde a década de 80 até aqui?

Essa pergunta é muito boa e fácil de responder, o fato – sem modéstia alguma e com todo respeito aos grandes jogadores e treinadores de outras épocas – é que nós fomos de uma geração (70 e 80) em que todos os clubes tinham grandes elencos. E o mais bacana é que na nossa época os treinadores eram “intocáveis”, não tinha essa rotatividade que tem hoje, o que tornava muito mais fácil uma boa formação de um atleta que vinha sendo acompanhado desde a base que incluía infantil, juniores, time aspirante, que era uma espécie de time B, até chegar ao profissional. Hoje, surgiu um Neymar, até surgir outro demora, na nossa época o Brasil era um celeiro de grandes talentos como Zico, Rivellino, Falcão, Roberto Dinamite, Cappergiane, Edinho, Luis Pereira e assim por diante. Essa é a grande diferença de formar bem um atleta, você gera vários talentos.

Robertinho foi craque do Fluminense (Arquivo pessoal)

Como foi sua entrada no mundo dos treinadores?

Eu parei de jogar futebol com 35 anos e fui fazer um curso de professor de futebol, na escola do Exército. Foi o melhor curso que fiz na minha vida. Era muito intenso. Fiquei entre os melhores alunos e, imediatamente, recebi uma proposta do Madureira e, na mesma semana, o convite para assumir, como Auxiliar Técnico, o Rio Branco de Americana (SP). A partir daí  foi maravilhoso, pois, eu tive o grande prazer de ter revelado e treinado grandes jogadores como Marcelinho Paraíba, Marcos Assunção, Marcos Senna, Pena, Sandro Hiroshi, Mineiro, entre outros. Isso foi um motor que impulsionou minha trajetória de treinador, eu vi que tava no caminho certo. Fui campeão pelo Rio Branco e depois Fluminense.

 

Como foi esse retorno, como treinador, ao Fluminense?

Posso dizer que no time que me formou eu ganhei tudo como treinador. Fui Campeão no Infantil-Brasileiro (o fluminense não tinha esse título), fui Campeão Juvenil-Brasileiro, fui campeão, com o sub-23, do título Olímpico Mundial, e assumi o time profissional, em 2002, ano do centenário do clube, onde também fui campeão e eleito o melhor treinador do Rio de Janeiro naquela ocasião. O legal é que no fluminense também tive esse dom de revelar jogadores, como Diego Souza, Arouca, Toró, Carlos Alberto e até mesmo o atual goleiro do Ceará, o Fernando Henrique.

 

A partir daí...

Depois do título com o time profissional do Fluminense, eu fiquei muito triste porque as propostas que começaram a surgir eram de equipes médias e eu sabia o valor da minha trajetória como jogador e treinador, mas os empresários dominavam as indicações e eu não tinha um forte empresário, comecei a ver um lado muito triste do futebol. Daí, surgiu uma excelente proposta da Tunísia, que me deu a oportunidade de abrir um mercado imenso no mundo árabe, fiquei 7 anos por lá, revelei e coloquei cinco jogadores na seleção da Tunísia. Passei por Stade Tunisien e Hammam Sousse , depois  Kazma Kuwait (Kuwait), Al Shamal (Qatar), entre outros.

 

Numa de suas passagens pelo Brasil, atuou como treinador, em Brasília, no Legião, time da família do cantor Renato Russo, como foi isso?

Essa história foi muito legal. O time é de uma família composta por torcedores do fluminense e fizeram o convite para eu fazer um trabalho como treinador do Legião e eu aceitei o desafio. Consegui, em 4 meses, montar uma equipe competente que subiu de divisão, alcançando o objetivo para o qual eu fui chamado.

Robertinho tem crescido na carreira como técnico (Arquivo pessoal)

A verdade é que você já rodou esse país e fora dele, seja como jogador ou treinador, e conheceu realidades diversas em cada região que passou. Isso, com certeza, engrandeceu você como pessoa e profissional...

Com toda certeza. Passei por lugares, culturas e realidades muito diferentes e o mais importante: sempre me adaptei – e me adapto – fácil em cada lugar. O atleta ou treinador tem que ter isso, se você ama o que você faz , você vai saber viver de acordo com as singularidades de cada local por qual passa. Não importa a divisão, nem a região. O importante é o que você vai deixar de contribuição à quem acreditou e confiou no seu nome, no seu trabalho.

 

Falta a região norte né? Em especial Belém, o que seria uma honra pra nós...

A honra seria toda minha, e isso é um sonho que gostaria muito de realizar. Qualquer treinador gosta de estar onde o futebol é tratado como um espetáculo e é isso que acontece em Belém. Eu tenho grandes recordações de quando ia jogar na capital paraense, eram jogos dificílimos contra Remo e Paysandu por serem times de massa. Lembro de uma vez, em que fui como jogador do Fluminense, jogar no estádio do clube do Remo e sofremos muita pressão porque era um estádio pequeno e completamente lotado. O futebol em Belém conta com a força máxima de suas torcidas e isso é muito bom. Como fruto do futebol, ficou minha amizade com Marinho e Aldo, ambos jogaram como lateral-direito no clube do Remo. Boas recordações...

 

Robertinho é um dos ex-atletas que chegaram à carreira como técnico (Arquivo pessoal)

Sobre a África...

Deus escreve certo por linhas tortas, essa frase sempre será atual. A África é uma grata surpresa na minha vida. Passei pela Tunísia, Angola e agora estou em Ruanda, no time do Rayol. Em 8 meses de trabalho aqui, eu formei jogador que hoje é titular no Egito, tenho centroavante que foi jogar no Canadá e tenho jogador atuando nos EUA. Todos fruto do trabalho e formação sob meu comando. Sou muito feliz aqui, onde tenho meu trabalho reconhecido e valorizado. Não tenho nenhum receio de indicar jogadores daqui, continuo – modéstia a parte – sabendo revelar talentos, para qualquer time do Brasil. Aliás, eu tenho o sonho de voltar a trabalhar no Brasil e poder fazer um intercâmbio entre atletas daqui da África com o nosso país, garanto que a qualidade técnica que temos não está aquém do que se vê no Brasil...

 

O que você achou da contratação do Paulo Henrique Ganso para o Fluminense?

Ganso é um jogador que tem qualidade técnica, altamente habilidoso, criativo, que foi uma inspiração pra Neymar, e que não se firmou na Europa porque é um futebol diferente, de aplicação. Acho que o lugar do futebol dele é aqui no Brasil mesmo. E um clube de tradição como o Fluminense precisa de um jogador de referência e o Ganso, na minha opinião, veio pra ser essa referência.

 

Na sua opinião, quais os clubes brasileiros são hoje os mais competitivos e com mais chances de “fazer barulho” no Brasileirão 2019...

Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional e diria até mesmo o Grêmio, mas, principalmente com a saída do Arthur, o tricolor gaúcho teve uma queda e não acredito que vá fazer a mesma campanha de 2018.

 

Obrigada pela resenha, foi uma honra...

 

Eu que agradeço, é mais fácil ser entrevistado por uma torcedora do tricolor carioca (risos).

Bel Soares