Patinetes elétricos não decolam em Belém e seguem restritos a poucos pontos da cidade
Lançado em agosto de 2025, serviço esbarra em tarifas consideradas altas, cobertura limitada, problemas de manutenção e falta de fiscalização, segundo moradores e especialista
Lançados em Belém em agosto de 2025 com a proposta de ampliar as opções de mobilidade urbana sustentável, os patinetes elétricos não conseguiram alcançar a popularidade observada em outras capitais brasileiras. Passados vários meses da implantação do serviço, muitos moradores dizem que a utilização permanece limitada a poucos pontos da cidade, enquanto a quantidade de equipamentos disponíveis é reduzida. Usuários também apontam a necessidade de ampliação das áreas de circulação, maior integração com outros modais de transporte e reforço da fiscalização para combater vandalismo e depredação dos equipamentos.
As dificuldades para fazer o uso dos patinetes elétricos decolar em Belém ainda são percebidas por usuários e especialistas quase um ano após a chegada do serviço à capital paraense. Ao percorrer diferentes pontos da cidade, é comum encontrar patinetes estacionados sem utilização por longos períodos. Para entender os motivos dessa baixa adesão, a reportagem ouviu usuários com diferentes perfis e o especialista em trânsito Rafael Cristo, diretor-presidente do Instituto de Segurança Viária da Amazônia (ISVA), que atualmente desenvolve pesquisas sobre a utilização dos equipamentos na região.
Segundo Rafael Cristo, os estudos iniciais conduzidos pelo instituto já identificam alguns fatores que ajudam a explicar por que o serviço ainda não se consolidou em Belém. "As pesquisas iniciais evidenciam a ausência de capilaridade do serviço e a pouca ligação com outros modais de transporte na capital paraense. Também é necessário um sistema mais simples e mais acessível para os usuários", disse. O especialista explicou que o potencial dos patinetes vai muito além de um equipamento voltado ao lazer. Em várias cidades do Brasil e do mundo, eles funcionam como complemento de outros meios de transporte, ajudando o usuário a percorrer pequenas distâncias entre pontos de ônibus, estações, locais de trabalho e residências. Para que isso aconteça em Belém, porém, é necessário ampliar a integração com a rede de mobilidade urbana.
"Deve ser estimulada a utilização com outros modais. Essa integração é fundamental para que o equipamento passe a fazer parte da rotina das pessoas", destacou. Além da integração, Rafael Cristo afirmou que a infraestrutura urbana tem papel decisivo na adesão ao serviço. Segundo ele, um ambiente seguro, com espaços adequados para circulação e boa organização urbana, favorece o uso dos patinetes. No entanto, a infraestrutura, sozinha, não resolve o problema.
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Preços mais acessíveis podem estimular uso
"O ambiente seguro com infraestrutura adequada e organização espacial permite uma utilização com mais qualidade. Mas o conhecimento das regras de circulação e o comportamento adequado dos usuários também são fundamentais", explicou. O especialista observou ainda que a ampliação territorial do serviço precisa ser acompanhada de estudos sobre tarifas e perfil dos usuários. Para ele, a definição de preços mais acessíveis pode estimular a procura e tornar o modal economicamente viável para um número maior de pessoas.
"É necessário encontrar tarifas mais acessíveis para estimular o uso. Também é importante entender melhor quem é o público-alvo e quais são suas necessidades de deslocamento", analisou Rafael Cristo. A dificuldade de acesso ao sistema aparece justamente como uma das principais reclamações de quem já experimentou os patinetes. O auxiliar de depósito Denison Santos, de 36 anos, utilizou o equipamento apenas uma vez e acredita que a forma de pagamento é um dos obstáculos para a popularização do serviço.
"Acho que deveria ter outro modo de pagamento. Tem muita gente que não tem cartão de crédito ou débito. Talvez pudesse existir alguma alternativa mais simples, que facilitasse o acesso para mais pessoas", afirmou. Na avaliação dele, essa limitação acaba afastando parte da população. "Isso dificulta muito o acesso. Acho que por isso muita gente não usa. Parece que o patinete ainda não pegou em Belém", contou.
Denison também citou a ausência de equipamentos de proteção como um fator que reduz o interesse pelo serviço. "Se tivesse capacete, joelheira ou algum equipamento de segurança disponível, talvez eu utilizasse mais vezes. A ideia é boa, mas precisa ser aprimorada", disse. A questão da segurança também é apontada pelo pintor Clenilton Santos, de 36 anos, que nunca utilizou os patinetes elétricos. Apesar de já ter visto os equipamentos em vários pontos da cidade, ele afirmou que nunca se sentiu motivado a experimentá-los.
Tarifas ficaram altas, diz moradora
"Eu uso muito a moto e já estou acostumado com ela. Nunca tive muita curiosidade de andar de patinete", disse. Mesmo sem utilizar o serviço, ele acredita que a falta de fiscalização contribui para a baixa adesão. "Vejo pessoas andando várias em um único patinete. Vejo equipamentos sendo usados de forma errada e não vejo fiscalização. Também não vejo exigência de equipamentos de segurança. Isso passa uma sensação de desorganização", afirmou. Clenilton também chama atenção para situações que observa em áreas mais afastadas da cidade.
"Já vi patinetes abandonados perto de canais e em locais que alagam quando chove. Quando a água sobe, eles ficam no meio da lama. Isso mostra que falta acompanhamento", criticou. Para a encarregada de setor Joseane Pena, de 35 anos, que trabalha em supermercado, o serviço apresenta vantagens importantes para deslocamentos rápidos, mas ainda esbarra em questões econômicas e operacionais. "Para passear e para ter uma mobilidade rápida ele é bom. Eu costumava usar bastante", contou. Nos últimos meses, porém, ela diminuiu a frequência de uso por causa do preço.
"As tarifas ficaram altas. Muitas vezes são poucos minutos por um valor que acaba não compensando. Dependendo da distância, um moto aplicativo sai mais barato", disse. Joseane acredita que esse seja um dos principais motivos para a grande quantidade de patinetes parados em diversos pontos da cidade. "Eu creio que muita gente deixa de usar por causa da tarifa. Quando aparecem promoções, a adesão aumenta porque o custo-benefício fica melhor", afirmou. A usuária também mencionou problemas relacionados à manutenção dos equipamentos. "Já peguei patinetes com defeito no freio. Isso gera insegurança", afirmou.
Outro problema enfrentado por ela envolve a disponibilidade dos equipamentos. "Teve uma vez que fomos utilizar os patinetes e todos estavam descarregados. Tivemos que esperar a troca das baterias para conseguir usar", lembrou. Além disso, Joseane considera que a área de operação poderia ser ampliada. "Já aconteceu de o sistema exigir que deixássemos o patinete em um ponto muito distante de casa para conseguir encerrar a corrida. Isso acaba sendo um transtorno", disse.
Mais pontos estratégicos
Ela também lembrou que uma amiga, de 40 anos, deixou de utilizar o serviço por ter dificuldades para realizar os procedimentos necessários no aplicativo, o que sugere a necessidade de tornar o sistema mais simples e intuitivo. Já o universitário Jairo Arnaud Monteiro, de 39 anos, integra o grupo de usuários que incorporou os patinetes à rotina. Ele utiliza os equipamentos com frequência para complementar seus deslocamentos pela cidade. "Eu uso para mobilidade. Já saí de consulta médica e utilizei o patinete para chegar ao meu destino de forma mais rápida", contou.
Mesmo satisfeito com a proposta do serviço, ele acredita que há espaço para melhorias. "O que poderia melhorar seriam pontos estratégicos de embarque e desembarque. Em locais como universidades, por exemplo, isso facilitaria muito o uso", opinou. Segundo Jairo, a criação de estações ou áreas específicas poderia fortalecer a integração dos patinetes com bicicletas, ônibus e outros meios de transporte.
Ele também aponta a necessidade de reforçar a manutenção dos equipamentos e investir em conscientização. "Falta manutenção, fiscalização e educação. Muitas vezes o problema não é apenas o equipamento, mas também a forma como as pessoas utilizam o serviço", afirmou. Na avaliação do universitário, o interesse inicial provocado pela novidade diminuiu com o passar dos meses e agora é necessário criar novos atrativos para estimular a utilização cotidiana.
"A novidade passou. Talvez seja preciso oferecer mais vantagens para que as pessoas passem a usar os patinetes no dia a dia, como uma alternativa real ao carro ou ao transporte coletivo", observou.
Para o especialista Rafael Cristo, o futuro do serviço em Belém depende de uma compreensão mais profunda das características locais da Amazônia. Ele defendeu a realização de estudos científicos que identifiquem hábitos, necessidades e comportamentos dos usuários da região. Segundo Rafael, aspectos como o clima amazônico, marcado por fortes chuvas durante boa parte do ano, também precisam ser considerados na operação dos equipamentos. "Belém é uma cidade que chove muito. É importante que os equipamentos fiquem em locais protegidos, que não alaguem e não sejam expostos a situações que possam comprometer sua conservação", afirmou.
O especialista também reforçou a importância de campanhas educativas permanentes, voltadas tanto aos usuários quanto aos demais atores do trânsito. "É fundamental entender o comportamento local e investir em educação para o trânsito. A região amazônica possui particularidades diferentes de outras cidades brasileiras, e isso precisa ser considerado para que o serviço tenha sucesso", afirmou.
Principais consensos identificados na reportagem
Problemas mais citados
Falta de fiscalização.
Manutenção insuficiente dos equipamentos.
Baixa integração com outros meios de transporte.
Cobertura territorial limitada.
Tarifas consideradas altas.
Necessidade de mais educação e conscientização no trânsito.
Soluções mais citadas
Ampliação da área de atuação dos patinetes.
Maior fiscalização.
Melhoria da manutenção.
Integração com outros modais.
Tarifas mais acessíveis.
Campanhas educativas para uso correto dos equipamentos.
Criação de pontos estratégicos para retirada e devolução dos patinetes.
Palavras-chave